O ciúme, a vingança…

Publicado: novembro 18, 2011 em Contos

Acordou decidida a acabar com tudo de uma vez. Afinal, ainda era bonita e aparentava bem menos (??) idade do que realmente tinha. Não podia sujeitar-se daquela forma por muito mais tempo; impassível. Até ontem tolerava tudo que viesse dele. Tudo mesmo!! Lembrou-se daquela vez em que foi destratada na frente dos amigos do trabalho dele; apenas por tê-lo interrompido em uma conversa banal. Também veio-lhe à mente a lembrança de uma briga causada sem nenhum motivo plausível, num sábado à noite, em que ficou sozinha, acordada, esperando a volta dele…

– Basta!!, gritou ainda deitada na cama.

Ruminava, consigo mesma, sobre como permitiu que esta situação se sustentasse durante 23 anos.

– Vinte e três longos anos!!

Toda a sua juventude e toda a sua beleza jogadas fora. E para quê?

Vieram-lhe novamente pensamentos brutos e abruptos. Lembrava-se sobre os conselhos recebidos das amigas, das primas, das irmãs. De todos!!

– Como pude ser tão cega? Sua idiota!!!!

“- Ele não presta, Márcia. É um safado!!!”, aconselhava Marcela, sua irmã mais velha.

“- Você é tão nova e bonita! Merece coisa melhor. Vai casar pra quê? E logo com o Roberto? Pensa bem…”, insistia Cátia, sua melhor amiga.

– Como pude ser tão cega? … Continuava com suas queixas invisíveis.

“- Fiquei sabendo, por uma amiga, que o Roberto circula lá pelos lados da Lapa. E cercado de pessoas “estranhas”…”

– CANALHA!!!!! Explodiu saltando da cama com o implulso do ódio.

– É hoje que isso acaba!!!!

■ ■ ■

– Amor, vamos ao cinema hoje? Tá passando um filme legal que eu queria…

– Não! Você sabe que eu não gosto de cinema. Meu negócio é um barzinho, uns amigos, umas cervejas… Cinema é coisa de fresco!!

– Pô, Beto!! Você nunca quer fazer nada comigo. Nem na cama você me procura mais e…

– Ah! Me dá um tempo, Marcia. Nós já conversamos sobre isso. E mais de uma vez!!

– Eu sei, Beto. Mas eu te amo. Eu sinto desejo. Eu quero sentir prazer…

– Porquê você faz isso comigo, Marcia? É pra me sacanear, é? Pra me humilhar? Pra quê, porra?

– Calma Beto, por favor! Eu não queria te aborrecer com isso. Ó, desculpa. Esquece tudo. Eu vou chamar a Marcela pra ir comigo. Esquece, tá?

– Tá beleza. Mas, porra, pára com isso, tá bom?

– Tá bom. Te amo!!

– Eu também…

■ ■ ■

Marcia se lembrava da conversa (?) de ontem á tarde e ficava mais fiuriosa ainda.

– Mentiroso safado!!! Como pude ser tão babaca??

Marcia não falava palavrão. Foi educada em uma doutrina religiosa fortíssima pela mãe. E, diferentemente de suas irmãs – Marcela e Margarete -, seguia à risca os ensinamentos recebidos. Mas desde ontem à noite, mais precisamente ás 20:13 h, quando descobriu tudo, toda a verdade, que não parava de xingar, de blasfemar e desejar vingança. Queria sentir o gosto do sangue do Roberto. E queria ela mesma “tirar” este sangue. O máximo de sangue possível. Mas não queria matá-lo. Queria vingar-se e queria que Roberto vivesse por muito tempo para sentir os reflexos da vingança. Seria A Vingança.

– Ele vai me pagar. Ele vai me pagar. Aquele filho-da-puta!!!

Marcia nunca havia falado tantos palavrões na sua vida. Se policiava sempre que estava nervosa ou aborrecida. Aquela descoberta de ontem à noite transformou aquela mulher doce e remissiva em uma besta sedenta por vingança; por sangue!!

■ ■ ■

Eram 10:00 h da manhã de um domingo. Acabara de sair do banho e penteava-se no quarto, em cima da cama. Foi até o guarda-roupas e escolheu um vestido novo; um vermelho que Cátia a havia dado em seu último aniversário, o de número 41, e nunca se atrevera a usar, pois achava-o muito “ousado”. Mas foi exatamente a sua primeira opção. O “vestido-ousado”. Afinal, era uma outra mulher. Uma mulher sedenta de sangue. Nada melhor que um vestido vermelho.

■ ■ ■

– Calma, Marcia. Eu posso explicar!!!

– Há!! Explicar…

– Não, calma. Vamos conversar. Abaixe isso. Guarde isso.

– Guardar? Roberto de Souza Carvalho, toma vergonha nessa merda de cara!! Seja homem pelo menos nos instantes finais.

– Peraí, amor…

– Amor é o cacete! Você não podia ter feito o que fez, Beto (chorando). Não comigo. Eu não merecia. Não mereço. Eu sempre te amei; cegamente, é verdade; mas amei…

– Eu sei, eu sei. E é em nome desse amor que eu te peço pra abaixar isso. Por favor? Você está me assustando…

– Adeus, Roberto. Adeus…

– Não! Espere…

Acabou. E acabou da forma como prometera nossa “heroína”: da forma mais sangrenta possível. Agora, Marcia teria uma outra vida. Uma nova vida. A vida que deveria ter tido desde o começo de seu casamento. Sua vingança a libertou de tudo que a sufocava, de tudo que a impedia de viver.

■ ■ ■

Não nos é permitido saber a causa da vingança, assim como também não nos é permitido saber o resultado da vingança. Um velho ditado diz que “a vingança é um prato que se come frio”, mas este prato foi comido ainda fervendo por Marcia. E ao contrário do que imaginamos, este prato fervente não a queimou no primeiro instante. Muito pelo contrário, matou a sua sede.

Hoje, Marcia já não tem tanta certeza se o que a impeliu à vingança era verdade. Pensava que seu ciúme poderia a ter cegado. Sua certeza tornara incerta. Sentia os efeitos da ingestão do “prato fervente”. Ele a corroía por dentro. E a saudade de Roberto, do Beto, aumentava a cada dia. Pegava-se chorando durante o dia e à noite. Pensava que toda a sua desconfiança, neste exato momento, não passava de criancice.

– Ah, que saudade, Beto!!!

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Desistência do subjuntivo

Publicado: novembro 18, 2011 em Contos

 

– Quer que eu te ‘ajudo’?

– Hã?

– Quer que eu te ‘ajudo’?

– Ah, sim. Obrigado. Não tinha entendido direito.

– Deve ser porque eu não usei o subjuntivo. Resolvi abandoná-lo, não servia para nada mesmo…

– Desculpe de novo, mas agora eu estou confusa. Do que você está falando?

– Do modo subjuntivo dos verbos. O correto, segundo alguns, seria eu ter dito “Quer que eu te ajude?”, e não “Quer que eu te ‘ajudo?’”. Eu não flexionei o subjuntivo, ou seja, incorri em erro gramatical… Segundo alguns, volto a repetir!

– Sinceramente, não notei nenhuma diferença entre um e outro. Pra mim, você falou igual nas duas vezes.

– Não disse? Ninguém usa mais o subjuntivo, por isso que eu resolvi abandoná-lo. Quando eu usava as pessoas me olhavam com aquele olhar, sabe?

– Que olhar?!

– Aquele, com o qual as pessoas nos olham quando falamos errado. Aquele olhar corretivo do tipo “Fala direito, rapaz!”. Isso me deixava muito desconfortável.

– Olha, se isso te conforta, eu não lançaria esse olhar pra ninguém, muito menos pra você. Pra falar a verdade, eu não sou muito boa em português, e nem me lembro disso que você tá falando aí…

– Exato! É sobre isso que estou falando. As pessoas interessantes não ligam para o ‘bem-falar’…

– Epa! Você está me cantando?! É isso?! Todo esse lenga-lenga pra me cantar?

– Não, não é isso. Desculpe-me…

– E vê se pára com esse tal de ‘bem-falar” comigo! Comigo não cola, valeu?! Cafajeste. Safado!!! – saiu.

– Mas, mas… Eu só queria ser moderno.

**********

– Oi, quer que eu te ‘ajudo’?

– Hâ…?

Tenho o coração vazio

Publicado: novembro 18, 2011 em Poemas

Tenho o coração vazio, de verso e prosa

Verso teu nome, proso teu perfume

Esvazio de sentimentos a realidade

Cujo azedume burocrático nos consome

Separação

Publicado: novembro 18, 2011 em Poemas

Tá! Vai embora, não te amo mesmo!

Mas feche a porta atrás de você

Pois ela não se abrirá mais;

Não pra você, ingrata!

 

Leve os seus perfumes,

Leve os seus retratos

Não deixe aqui,

Nenhum dos seus rastros

 

Não se ofenda,

Mas eu não te amava mesmo!!

Não pra valer, como os outros casais!!

Também não guarde mágoas

Quem sabe, algum dia desses

A gente não sai pra tomar um chopp?

No taxi

Publicado: novembro 18, 2011 em Contos

O taxi acabara de entrar na Avenida Brasil e o Cunha continuava calado, só tendo falado ao taxista o destino desejado. O motorista já havia tentado puxar assunto por 3 vezes, mas como só obteve “han-hans”, decidiu por calar-se. Passavam, nesse exato momento, em frente ao Cemitério do Caju, e o Cunha ainda pensava na promoção recebida naquela tarde. Não entendia ainda as atribuições do novo cargo – Gerente de Assuntos Internos -, inventado na Reunião Semanal de Pessoal e “dado de presente” a ele. Não que não se achasse merecedor de uma promoção, mas que era estranho, isso era.

Porquê ele? Porquê não o Machado, que era mais antigo na empresa? Achava o machado mais preparado do que ele, mas se a “cúpula” decidiu-se por ele, que assim fosse. Seria mais um desafio profissional na vida, que já tinha transcorrido 57 anos; cinquenta e oito dali há 2 meses.

Passavam pela Fiocruz, e entrariam na Linha Amarela a qualquer momento quando o Cunha começou a dar espaço à outras indagações, como a que “esse presente poderia ser uma cilada, armada pelo Peixoto, que nunca foi com a sua cara”. Refutou logo essa idéia, pois apesar de tudo, o Peixoto era um cara sério, profissional. Não se rebaixaria a isso, só pra prejudicá-lo. O Peixoto, acima de tudo, pensava primeiramente na empresa, e não lhe daria um cargo de gerência, só pra provar que não era capaz.

– Ah! Bobagem. Eu mereço sim.

– O quê, senhor?

– Hã? Nada, desculpe. Eu tô pensando alto, só isso.

O motorista respondeu com a cabeça, e reduziu um pouco a velocidade do carro, pois logo à frente havia uma blitz, – fato corriqueiro no Rio de Janeiro -, já na Linha Amarela, na altura de Del Castilho. Mas essa era uma blitz falsa. E infelizmente o motorista era ex-policial militar. E pior: dentificou-se. Foi morto ali mesmo, no seu posto de trabalho, à sangue frio. Assustado, o Cunha também foi baleado. Mas não morreu. Ficou internado 2 meses. Quando voltou ao trabalhor, descobriu que havia outro em seu lugar. E pior: estava demitido.

Voltou pra casa, dessa vez de ônibus, pensando: “Belo presente de aniversário!!!”

Versos e mais versos

Publicado: novembro 18, 2011 em Poemas

Transpiro monotonia

Trago pesadelos infantis

Torturo a quem acompanha,

Com o olhar ou o coração,

O vil ser-pensante

A quem chamam: filho

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Não finjo minha dor

Ela existe e se apresenta

Rindo e escarrrando na minha cara.

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Observo, com um pouco de tristeza, o silêncio

Antes tão bom, agora, sei lá!

Procuro algo, não acho.

Não me importo; não me esforço.

Fecho o livro e vou dormir.

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Deitado pela sala, aguardo algo. Não sei.

Filosofo barato, ouvindo o samba do pianista

Quebro o gelo, e sonhos de espatifam.

Súbitas alegrias aparecem, esparsas. Se vão.

Não ousam ficar, não há espaço

Peço mais um favor, e o silêncio se faz

Que bom! Voltei à realidade.

Vontade de trair

Publicado: novembro 18, 2011 em Contos

Joelma estava disposta a trair. Não sabia de onde vinha aquela vontade, digamos, tão repentina. Acordou com ela, e, coincidentemente ou não, estava disposta a isso, a trair sem dó nem piedade o Rogério, que pelo menos aparentemente, não merecia. Era um namorado perfeito aos olhos dela e dos outros. Os amigos e conhecidos, que os via juntos exclamavam: “Nasceram um para o outro. Fazem um casal lindo. Ah, que inveja!”.

É. Perfeito demais, pensou Joelma. “Está na hora de colocar as coisas nos seus devidos lugares”. Também estranhou aquele pensamento, tão inédito em sua mente quanto a nova vontade de trair. Mas a vontade era grande demais. Fazer o que? Ligou para a Lurdinha, sua melhor amiga, para se aconselhar. Explicou tudinho, de como acordou diferente, ou pelo menos, com pensamentos diferentes, quase “não-seus”, de tão estranhos que eram. Lurdinha riu bastante no início, mas depois de levar uma bronca da Joelma, deu a sua opinião:

– Olha Jô, isso é natural. Todos, homens e mulheres, têm vontade de trair de vez em quando. A diferença é que nem todos fazem o que dá na telha, entende?

– Você tem razão. É besteira minha. Valeu pela força, Lurdinha. Um beijo!

 

▪ ▪ ▪

 

– Eu não sei o que estou fazendo aqui. Acho que enlouqueci!!!!

– Calma, Jô. Já aconteceu. Nem a Lurdinha nem o Roger precisa ficar sabendo. Isso acaba agora, ta bom?

– É. Você tem razão. Fecha a conta e vamos embora, Marcos.

 

▪ ▪ ▪

 

Já se passaram dez anos. Marcos Vinicius, marido de Joelma, ex-noivo de Lurdinha está numa sala, chorando, com um copo de whisky na mão esquerda e uma 9mm na direita.

– Aquela safada. Vou matar os dois. Logo com o Roger? Meu melhor amigo.